Países do BRIC podem deixar UE para trás, diz especialista

O mundo mudou pouco desde a primeira Cúpula BRIC, em junho de 2009. O cenário era de crise internacional – mas a economia da China expandia a 8%; a da Índia e da Rússia, a 7%, e a do Brasil, a 4%. “O quadro era: os países BRIC crescem e os outros não”, avalia Luciana Acioly, coordenadora de estudos de relações econômicas internacionais do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

No panorama atual, a crise foi aplacada: “Mas esses países continuam crescendo e os outros países desenvolvidos ainda não retomaram o crescimento”, considera. Os líderes políticos tentam usar essa fortaleza econômica para desafiar a ordem global – um desafio claramente pacífico. Eles querem se sentar à mesa das instituições internacionais com mais autoridade.

Moeda comum: só intenções

Acioly avalia a importância da instituição de uma moeda comum no BRIC: “Sabe-se que eles não querem mais ficar ao sabor das oscilações do dólar. É uma preocupação para os países desenvolvidos essa posição do BRIC de querer não depender tanto da moeda de reserva internacional, que é o dólar”, pontua. “Mas isso está muito longe de acontecer. O que os países fazem é mais uma demonstração de esforço”, acrescenta.

Segundo Petika Tewari, do Icrier, da Índia, os países do BRIC devem resolver questões internas antes de impor uma moeda comum. “Para que isso aconteça, é preciso que existam conexões. E todos os quatro países têm questões internas bem diferentes. É preciso ainda mais estabilidade para que se pense numa moeda comum. E isso não será num futuro próximo, certamente.”

Relação com a União Europeia

Na opinião de Sérgio Costa, diretor do Instituto para América Latina da Universidade Livre de Berlim, a União Europeia ainda olha para o BRIC com certa desconfiança: “Há uma expectativa: as pessoas querem entender o que está acontecendo nesses países. E ao mesmo tempo não querem se atrasar, não querem intensificar suas relações com o BRIC depois das outras nações. Mas, ao mesmo tempo, a UE não se arrisca a tomar uma decisão porque o quadro ainda não está claro.”

Há entraves em outros campos, que não o econômico, que afastam a UE do BRIC como o problema dos direitos humanos na China, a repressão à imprensa na Rússia e, no Brasil, a ausência de uma política ambiental mais zelosa.

O fato de o BRIC ainda não ser um bloco instituído como a União Europeia tem pouco significado no contexto atual, acredita Acioly. “As circunstâncias levaram com que esses países se juntassem. Mas isso não diminui o poder de fogo deles. Eles podem fazer acertos, por exemplo, que impliquem algumas retaliações ao mercado europeu.”

Entre 2003 e 2007, o crescimento dos países do BRIC correspondeu a 65% da expansão do Produto Interno Bruto mundial. A previsão de economistas é que em 25 anos as economias do Brasil, Rússia, Índia e China sejam dominantes.

“Se os países conseguirem coordenar sua política de maneira que aumente o comércio entre o grupo e com o mercado internacional, e consigam atrair investimentos, eles conseguirão se impor e deixar a União Europeia para trás. Isso não é impossível”, avalia Petika Tewari.

Autora: Nádia Pontes

Revisão: Roselaine Wandscheer

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