Déficit altera trajetória do câmbio

As projeções de déficit em transações correntes do balanço de pagamentos para este ano tiveram aumento de mais de 100% em seis meses e isso está na raiz da mudança na dinâmica da taxa de câmbio, que agora tende a enfraquecer o real.

Em agosto de 2009 a pesquisa Focus, do Banco Central, registrava uma expectativa de US$ 22 bilhões de déficit para este ano. O último boletim, divulgado ontem, já considera um déficit de US$ 45,5 bilhões, resultado de uma queda no saldo comercial e elevação do déficit da conta de serviços e rendas, movida principalmente pelo aumento das remessas de lucros e dividendos das empresas multinacionais para suas matrizes no exterior. Há quatro semanas o Focus previa déficit bem menor, de US$ 40,3 bilhões. No mercado, alguns analistas já mencionam que este número pode surpreender e bater na casa dos US$ 60 bilhões ao fim de 2010.

As projeções do BC também quase dobraram: saíram de US$ 22 bilhões para US$ 40 bilhões, conforme a última estimativa para as contas deste exercício. Elaborados em setembro do ano passado, contudo, hoje os números do BC se mostram conservadores.

A tendência da taxa de câmbio, de depreciação do real frente ao dólar (que também vem se valorizando em relação a outras moedas), é a resposta natural a essa deterioração das contas correntes do balanço de pagamentos do país, num regime de taxas flutuantes.

O déficit externo é crescente por razões domésticas: aumento da renda e do nível de atividade econômica. “E isso está ocorrendo porque estamos saindo da crise de 2008 na frente dos nossos principais parceiros comerciais”, disse uma graduada fonte oficial. Com crescimento da ordem de 5% a 6% estimado para a economia brasileira este ano, as importações se aceleram para o abastecimento interno de mercadorias e serviços, assim como a balança de serviços e rendas também sofre pressões, elevando mais o buraco das contas correntes, revertendo uma situação de superávit que dominou os anos de 2003 a 2007.

O déficit externo, porém, é do tamanho que o resto do mundo estiver disposto a financiar. Se os investidores começam a achar que o país está assumindo uma situação deficitária acima das suas possibilidades, a própria taxa de câmbio começa a mudar, o real se enfraquece e as importações ficam mais caras. O ciclo normal da política econômica, nesse caso, é clássico: a desvalorização da moeda local pressiona a inflação e a autoridade monetária eleva os juros para desaquecer a demanda.

Não se espera, no governo ou no mercado, uma trajetória ininterrupta de depreciação da moeda. Haverá movimentos de alta e de baixa, com tendência altista mas muito gradual. Assim, a taxa nem chegará aos R$ 2,60 como certa vez citou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como um cenário onde as exportações brasileiras seriam imbatíveis, nem cairá para a casa de R$ 1,50 este ano, como se temia há poucos meses. O mercado, hoje, trabalha com câmbio a R$ 1,75 para o final de 2010.

Outra questão que se coloca nessa discussão se refere às razões pelas quais, estando o Brasil numa situação macroeconômica e institucional estável, não pode ter um déficit em transações correntes de 3% ou 4% do Produto Interno Bruto (PIB) tranquilamente financiável pelo mercado internacional. É fato que a economia brasileira, em seus grandes indicadores, estava melhor há três ou quatro anos, quando além de estabilidade inflacionária, tinha superávit externo. Uma explicação possível é que o grau de investimento dado ao país pelas agências de rating ainda é recente, nem completou um ano. Outra razão, como um economista do governo chamou a atenção, é que mesmo depois do “crash” de 2008, os mercados continuam tratando os países emergentes como “inerentemente mais arriscados”. Conceito que deveria ter sido atualizado no pós-crise global, pois foi no mundo desenvolvido que ocorreram os problemas graves de descasamento de ativos e passivos no sistema financeiro.

Outro fator que apenas começou a ser contabilizado pelos investidores estrangeiros é que os candidatos à sucessão do presidente Lula querem uma moeda mais fraca. Nesse sentido, a entrevista do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), à revista “Veja”, onde ele disse que um eventual governo de José Serra mudará a política monetária e cambial, deixou o mercado mais atento.

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