Uma pesquisa mostra que, nos próximos 15 anos, São Paulo se consolidará como um dos principais centros consumidores do mundo e terá uma população com renda média e alta maior que Londres e Paris.


Costuma ser sombrio o futuro das grandes cidades na imaginação humana. A Metropolis do cineasta Fritz Lang escraviza os trabalhadores e os obriga a viver no subterrâneo. Em Blade Runner, a Los Angeles concebida por Ridley Scott é um inferno escuro onde humanos e androides lutam pela vida. Já a Gotham City dos quadrinhos abriga tantos bandidos que nem Batman é capaz de pacificá-la. Felizmente, as coisas não parecem tão más na vida real — especialmente para São Paulo, principal megalópole brasileira. A região metropolitana de São Paulo é hoje a quinta maior aglomeração humana do planeta — atrás de Tóquio, Nova York, Cidade do México e Mumbai. São 19,4 milhões de pessoas que vivem na capital paulista e em outras 38 cidades que acabaram fundindo suas fronteiras e formaram o coração econômico do país. A boa notícia é que São Paulo, em vez de dar sinais de exaustão, mostra-se como um dos campos mais férteis do mundo em oportunidades de negócios. A conclusão é de um estudo da consultoria inglesa PricewaterhouseCoopers, obtido com exclusividade por EXAME, que projetou a população e a renda de algumas das principais metrópoles do mundo para o ano de 2025. Pelas contas da PwC, São Paulo ganhará 2,1 milhões de habitantes nos próximos 15 anos e atingirá a cifra de 21,4 milhões de pessoas. No mesmo período, a região vai praticamente dobrar o PIB para 782 bilhões de dólares em paridade de poder de compra, o que a colocará na posição de sexta metrópole mais rica do mundo — quatro colocações acima da atual.

O mais importante é a maneira como essa riqueza deve se distribuir. Na perspectiva dos consultores da PricewaterhouseCoopers está o substancial aumento do número de pessoas com renda per capita acima de 4 500 reais por mês, a faixa mais alta analisada na pesquisa. A consultoria estima que São Paulo tenha atualmente 4,5 milhões de pessoas nessa categoria. Em 2025, serão 9,5 milhões de habitantes na mesma situação. São Paulo contará, então, com mais gente com esse potencial de consumo do que Paris e Londres, duas das mais ricas e sofisticadas capitais do mundo. É claro que a maior cidade brasileira continuará tendo mais pobres que Paris — que, estatisticamente, já não tem população de baixa renda, situação atual de 22% dos paulistanos. De qualquer forma, se as projeções da PwC se confirmarem, os próximos anos serão marcados por uma intensa mobilidade social na região.

Do ponto de vista do consumo, as transformações devem ter impactos brutais. “A classe média vai se fortalecer, com a vantagem de que o maior crescimento será exatamente nas faixas de renda mais altas”, afirma a economista e coordenadora do estudo Yael Selfin, da PwC, em Londres. “Apesar das cidades chinesas e indianas estarem hoje em maior evidência, São Paulo deve oferecer melhores oportunidades para as empresas que trabalham com produtos e serviços de maior valor agregado, pois China e Índia ainda terão de tirar muita gente da pobreza.” As projeções da PwC são animadoras, sobretudo porque sinalizam que a região permanecerá na rota do crescimento sustentado por mais uma década e meia. “Acreditamos que os surtos passageiros de compras, como os que sucederam os planos Cruzado e Real, serão substituídos por um crescimento de consumo mais gradual e consistente”, diz Selfin. As projeções da PwC são lastreadas por um crescimento anual médio do PIB da região estimado em 4,2%.

O setor imobiliário é um dos que mais devem se beneficiar caso o cenário projetado se concretize. “Estamos otimistas, e não somos os únicos. Acabamos de receber 1 bilhão de reais de investidores para nosso plano de expansão”, afirma Ubirajara Spessoto, diretor-geral da Cyrela, maior incorporadora do país, que realizou captação na Bovespa em 27 de outubro. Spessoto passou todo o mês de outubro em uma maratona de reuniões com investidores nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Os slides utilizados durante o road-show daCyrela têm muito em comum com o estudo da PwC. Mostram uma combinação de crescimento populacional com aumento de massa salarial e redução do número de pessoas por domicílio. “É a fórmula certa. Ela se traduz em maior demanda por novos imóveis e mais gente com capacidade de realizar o sonho da casa própria. São Paulo é perfeita para essa expansão, pois ainda tem um nível de verticalização baixo.” Como sempre, os negócios imobiliários abrem espaço para a venda de toda uma gama de produtos, especialmente nas faixas mais altas de renda. Essa seara inclui mobiliário, aparelhos eletroeletrônicos e vários serviços domésticos, como os de telecomunicações. “Uma população desse tamanho e com esse perfil de renda praticamente elimina as barreiras do nosso setor do ponto de vista da demanda”, afirma Renan Leal, diretor executivo de planejamento estratégico da Telefônica. “A casa conectada, em que o morador consegue comandar remotamente os sistemas de iluminação e som, será uma realidade muito difundida em 15 anos.” Segundo ele, o entretenimento pela internet, como os filmes sob demanda, também deve se desenvolver muito nos próximos anos.

O fato é que a ascensão de renda da população de São Paulo abre oportunidades em praticamente todos os segmentos, desde o de comidas prontas até o de produtos de luxo. A cidade representa atualmente 70% do mercado de luxo do país, estimado em 5,9 bilhões de dólares ao ano. Os 4,5 milhões de pessoas que vão entrar na faixa de renda acima de 4 500 reais são candidatos a alimentar os setores de serviços e produtos sofisticados. “É a escala da classe média que gira a roda da economia do luxo”, afirma Carlos Ferreirinha, sócio da MCF Conhecimento, consultoria especializada nesse mercado. O setor aéreo é outro que deve ser beneficiado nos próximos anos pelo chamado consumo aspiracional — aquele motivado mais pelo desejo do que pela necessidade. “O número de passageiros de avião deve triplicar em São Paulo — e no Brasil — até 2025”, afirma Andre Castellini, da consultoria Bain & Company. “Depois de móveis, eletrodomésticos e carro, a viagem a turismo é a maior ambição do brasileiro.”

Fundada há 455 anos, a cidade de São Paulo dormitou por séculos e só começou a virar um polo mais dinâmico de desenvolvimento nas últimas oito décadas, especialmente com o sucesso da produção de café no interior do estado e, mais tarde, com a industrialização. Mas foi nos anos 70 que a cidade entrou numa fase de explosão demográfica — quase triplicou de tamanho entre 1970 e 1990. Foi também a partir daí que se consolidaram características que hoje são marcas registradas de São Paulo — a violência, o trânsito caótico, as favelas. Modernizar-se e, aos poucos, desfazer os nós acumulados nas últimas décadas é o desafio agora. Os aeroportos da cidade estão estrangulados — e sem eles não há como o turismo crescer. Não há mais espaço nas vias — mas os carros não param de chegar. O poder público tem um papel importante para que o aumento do consumo não se traduza em caos urbano. “Daqui a 15 anos, provavelmente teremos rodízio em dias alternados, pedágio urbano, mas também teremos mais metrô e muito possivelmente estaremos discutindo um segundo rodoanel”, afirma Paulo Cardamone, da CSM Auto, empresa especializada em informações para o mercado automobilístico. Segundo ele, o potencial de consumo aberto pelas previsões da PwC aumentaria sensivelmente as vendas de carros mais luxuosos. A frota da região passaria por uma forte modernização, abrindo espaço também para o segmento city car, de veículos pequenos e econômicos, destinados basicamente ao trajeto de casa para o trabalho.

Olhar a experiência paulistana sob o prisma histórico evidencia que a cidade se prepara para repetir, com décadas de atraso, a trajetória de outras grandes metrópoles do mundo. Até o início do século 20, Nova York tinha um problema crônico de violência e não sabia o que fazer com as montanhas de esterco de cavalo. Mas já era um polo industrial importante e ganhava sua primeira linha de metrô — e se tornou a potência que conhecemos. São Paulo começa, aos poucos, a traçar esse caminho. Isso abre espaço também para uma evolução cultural. “Boa parte da classe média ascendeu recentemente de faixas mais baixas e ainda está matando a expectativa de consumo reprimida”, afirma Marcos Pazzini, da consultoria Target Marketing, especializada em consumo. Depois de comprar e melhorar a casa, o carro e o guarda-roupa, o consumidor tende a racionalizar o consumo. “A tendência é que ele valorize mais a educação dos filhos e os investimentos financeiros.” Hoje, as escolas privadas respondem por apenas 15% dos alunos matriculados da Grande São Paulo, menos de 600 000 alunos. “Esse número pode dobrar com o aumento de renda”, afirma Renato Souza Neto, da Prismapar, especializada em finanças empresariais, com clientes da área de educação.

Projetar o futuro é uma tarefa repleta de riscos. Surpresas são parte da vida — mas nem sempre isso é ruim. Para os fundadores da rede de decoração Tok&Stok, o casal francês Ghislaine e Régis Dubrule, a São Paulo de hoje era inimaginável há 30 anos, quando abriram a primeira loja de 80 metros quadrados na capital paulista. Atualmente, a Tok&Stok possui 28 lojas em 11 estados brasileiros. Formados em ciências políticas, os Dubrule pensavam em se estabelecer na área acadêmica. A ideia da loja surgiu com a dificuldade do casal de mobiliar a casa. “Ou era tudo muito caro ou tudo muito popular”, afirma Paul Dubrule, filho dos fundadores da rede e responsável pela área financeira da Tok&Stok. Os Dubrule não tinham, obviamente, um estudo capaz de mostrar o que aconteceria na economia brasileira. Atravessaram períodos de recessão, hiperinflação e testemunharam uma mudança radical no comportamento do consumidor brasileiro, que permaneceu praticamente isolado do resto do mundo até a década de 90 pelas barreiras do país ao comércio internacional. “Hoje, as pessoas querem saber muito mais sobre a qualidade do produto. Querem saber se o móvel é feito com madeira certificada e se segue o padrão global. O cenário mudou, mas ele parece tão ou mais promissor do que quando meus pais começaram”, diz Paul.

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